Quem não sou


O velho se acomodava em sua poltrona, que talvez fosse tão velha quanto ele, pois a seu pai, um dia, pertencera. Volitava junto das partículas de pó que visitavam a sala... umas delas partiam; outras, ficavam. Cansado de movimentos arrítmicos e de uma fluidez monotonamente inquietante, buscava algo que o surpreendesse pelo olhar.

Tudo na sala permanecera intacto nos últimos anos. Talvez, como ao seu coração, nada se somara, a não ser os tantos anéis que o tempo obriga a usarem as árvores.

Atraído por uma presença estranha, rumou sua vista, com certa lentidão, para a visitante inusitada. A joaninha, de tão pequena, se confundia com as bolinhas de pelo que se aninhavam na calça desgastada do velho homem.

Reconheceu, de instantâneo, a criaturinha que o tocava.

Apesar de todo impulso de retirá-la de sua veste à força, segurou sua mão que já estava a desferir o violento golpe. Pôs o dedo no caminho da pequena e, gentilmente, permitiu-a escalar seu indicador, que não seria arma de nenhum crime assassino.

Trouxe-a para perto dos olhos cansados e, num sorriso caridoso e maduro, confidenciou:

- Eu não sei quem sou, mas sei quem não sou...



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