A razão do coração


                Quando se trata de ensinar o coração, tudo é mais complicado. Sentimento é teimoso, é arteiro... A gente repete, como se faz com a criança, o que se deve e não se deve fazer, mas o danado não aprende fácil...

Sentimento é meigo, mas também é ardiloso. Faz e desfaz suas tramas e deixa seu dono – que às vezes não parece dono – à mercê das suas vontades. O coração, no qual habita o sentimento, precisa de tantos cuidados...

Sentimentos são vizinhos numa cidade muito grande. Eles se conversam, brigam entre si, se amam, se odeiam... No meio disso tudo, o coração se vê muito confuso: uns gritam, da janela, palavras iradas e desafetuosas; do outro lado da cidade, outros relevam as ofensas com sorrisos brandos e macios.

O imo fica em apuros quando a discussão é muito intensa ou, também, quando um bairro fala mais alto que todos os outros e só satisfaz suas vontades.

Então, a razão – essa tutora sincera e justamente calculista – entra em cena e ajuíza o íntimo abalado. Este, no fervor ardente do conflito da vontade, ainda tão imaturo e pouco educado, se esquece da importância do equilíbrio...

Ah, se o coração ouvisse a voz da razão pelo menos um bocado!



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